Um carro antigo dificilmente chega sozinho a um encontro. Com ele vêm lembranças, histórias de família, viagens, amizades e, muitas vezes, uma relação afetiva construída durante décadas. É esse universo que deve tomar conta do Centro Náutico Marinas neste domingo, 16 de agosto, durante o 2º Encontro de Carros Antigos de Guaíra, promovido pela Associação Antigos da Fronteira, com apoio do Município de Guaíra, por meio da Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Cultura.

Até ontem, terça-feira (11), o evento já contabilizava 125 veículos inscritos, mas a expectativa da organização é alcançar aproximadamente 250 carros. Segundo um dos organizadores, Jaderson Oliveira, muitos proprietários preferem efetuar a inscrição somente quando chegam a Guaíra, principalmente aqueles que percorrem longas distâncias com os próprios veículos antigos.

E eles virão de diferentes lugares. Entre as cidades que já possuem participantes confirmados estão Tacuru/MS, Naviraí/MS, Assis Chateaubriand, Araruna, Tapejara, Marechal Cândido Rondon, Pato Bragado, Cidade Gaúcha, Terra Boa, Cianorte, Terra Roxa, Rolândia, Londrina, Uraí, Toledo, Cascavel, Iporã e Palotina, além de representantes do Paraguai. A RT Collection confirmou uma exposição especial de jipes militares, enquanto participantes de Uraí preparam uma expedição de carros antigos até Guaíra.

A distância percorrida por muitos expositores também produz reflexos fora do local do evento. Parte dos participantes deve chegar já no sábado, hospedar-se na cidade e aproveitar o período para conhecer os atrativos de Guaíra. Hotéis, restaurantes, passeios de barco, comércio, turismo de compras no Paraguai e o Duty Free estão entre as opções procuradas por quem transforma a participação no encontro em uma pequena viagem de fim de semana.

Para o Município, esse movimento reforça o potencial dos eventos como instrumentos de fomento ao turismo e à economia local. O visitante que chega para expor um veículo também utiliza hospedagem, alimentação, comércio e serviços e, ao mesmo tempo, conhece outros atrativos que podem motivar novas visitas ao município.

Mas o convite para domingo não se limita a colecionadores ou proprietários de relíquias automotivas.

“É uma festa que tem carros antigos, almoço, brinquedos infláveis e shows. É um convite para toda a comunidade de Guaíra e da região passar um dia diferente em um lugar bonito, acolhedor e agradável. Não precisa ser amante de carro antigo e nem ter um. Pode vir pela resenha, pelo bom papo, pela troca de experiências e para receber quem vem de fora e mostrar que Guaíra gosta de receber bem”, explica Jaderson.

A programação contará com exposição de veículos, mercado de pulgas, feira de artesanato, praça de alimentação, Espaço Kids gratuito, brinquedos infláveis, pipoca, algodão-doce e apresentações das bandas Rock Factory e Front Rock. O almoço na Barraca Alemã também é aberto ao público e não apenas aos expositores. As fichas podem ser reservadas antecipadamente pelo WhatsApp (44) 99154-9714, pelo valor de R$ 30 para adultos e R$ 15 para crianças de 7 a 12 anos. Crianças de até 6 anos não pagam. A organização orienta o público a levar prato e talheres.

Quando um Fusca deixa de ser apenas um Fusca

A relação de Jaderson com o antigomobilismo ajuda a explicar por que esses encontros atraem tanta gente. Ele conta que nunca foi alguém especialmente ligado ao universo dos automóveis. Havia, porém, uma vontade antiga: ter um Fusca, simplesmente porque foi em um carro desse modelo que aprendeu a dirigir.

Quando adquiriu um Fusca 1969, o que era apenas uma lembrança afetiva abriu as portas para um universo que ele pouco conhecia. Vieram os primeiros encontros, as conversas com outros proprietários, as viagens e a descoberta das histórias escondidas por trás de cada veículo.

“Na primeira vez que fui a um encontro, fui mais por curiosidade. Não dava muita coisa por aquilo, mas fui fisgado pelo clima, pela acolhida e pela troca de experiências. Cada carro tem uma história”, conta.

O Fusca de Jaderson conquistou posteriormente a conhecida placa preta, identificação destinada aos veículos de coleção que preservam elevado grau de suas características originais. Entre os detalhes mantidos no modelo está uma curiosidade típica daquele ano: apenas um retrovisor externo. Algumas adaptações relacionadas à segurança foram incorporadas, como cintos de três pontos, sem eliminar os cintos de cintura característicos do veículo.

Mais do que preservar uma máquina de 1969, no entanto, o Fusca passou a criar novas histórias.

Casado e pai de três crianças com menos de sete anos, Jaderson leva a família para encontros em diferentes cidades do Paraná. O carro que inicialmente simbolizava a lembrança de quando aprendeu a dirigir passou a fazer parte da infância dos filhos.

“O carro antigo me ajuda a criar memórias com a minha família, e isso não tem preço”, resume.

E histórias curiosas não faltam nesse universo. Jaderson lembra, por exemplo, de um veículo adquirido por aproximadamente R$ 40 mil, apesar de possuir valor estimado muito superior, após permanecer com a ex-esposa do antigo proprietário em uma separação. O carro trazia lembranças do casamento e acabou vendido por um valor abaixo do mercado. O novo proprietário abraçou a história e hoje leva o automóvel aos encontros com um apelido impossível de passar despercebido: “Divorciada”.

Casos assim ajudam a explicar uma definição recorrente entre os participantes. Para Jaderson, o encontro de carros antigos guarda semelhança com aquela partida de futebol disputada entre amigos na qual o jogo é importante, mas a conversa antes e depois dele talvez seja ainda mais.

“É como o pessoal que joga futebol não apenas pela bola, mas pela resenha. No encontro é assim. A gente gosta dos carros, claro, mas também gosta da energia, da vibe, das amizades e das histórias. É viciante”, relata.

Uma paixão que cresce em Guaíra

Formalizada recentemente, a Associação Antigos da Fronteira já reúne 44 associados em Guaíra, resultado de um movimento que ganhou força após a realização da primeira edição do encontro.

Em 2025, o evento reuniu 191 veículos de 31 cidades, com representantes do Paraná, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, além de participantes da Argentina e do Paraguai. Aproximadamente 2 mil pessoas passaram pelo encontro. Entre as curiosidades daquela edição estiveram um Chevrolet Vauxhall Veloz 1949, de Assis Chateaubriand, como veículo mais antigo, e uma Volkswagen Kombi 1985, que percorreu o trajeto desde Bariloche, na Argentina.

Agora, com a segunda edição às portas e possibilidade de superar o número de veículos do ano passado, o encontro reforça uma característica que já ficou evidente na estreia: mais do que reunir carros preservados pelo tempo, Guaíra reúne pessoas que preservam histórias — e cria espaço para que novas memórias sejam construídas.

O 2º Encontro de Carros Antigos de Guaíra será realizado neste domingo, 16 de agosto, no Centro Náutico Marinas. A entrada para visitantes é gratuita. Expositores podem realizar a inscrição também no dia do evento, pelo valor de R$ 10 mais a doação de 1 quilo de alimento não perecível. A realização é da Associação Antigos da Fronteira, com apoio do Município de Guaíra, por meio da Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Cultura, do Itaipu Parquetec e da Itaipu Binacional.

DICSI: ARTE: Gabriel Gurjão / Texto e Revisão: Cintia Marques